Conheça o festival SONORA – Ciclo Internacional de Compositoras

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Em tempos onde a gramática tenta se adaptar à heteronormatividade com seus amigxs e convidadxs, ainda existem motivos e palavras na língua portuguesa que despertam uma necessidade de celebrar o gênero. Assim é a palavra “poetisa”, que não apenas soa como música aos ouvidos, mas também evoca sentimentos muito próximos do amor, do companheirismo, da dor e delícia do ser feminino.

Agora imagine um, dois, muitos encontros formados por verdadeiras poetisas que plantam e colhem os frutos de uma terra fértil em talento, e os transformam em letras de canções? Você está prestes a conhecer a história da poetisa, musicista e compositora Deh Mussulini, que através de uma iniciativa corajosa vem transformando um segmento da música brasileira e conta com uma trajetória repleta de lições para as mulheres que vivem da música.

Deh é criadora do festival SONORA – Ciclo Internacional de Compositoras. Porém, mais importante do que o resultado desta história é o caminho percorrido, onde criou-se uma rede genuína de mulheres dispostas a quebrar barreiras e mostrar talento.

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Deh Mussolini: a criadora do SONORA teve apoio de outras compositoras para fundar o projeto

Tendo graduado-se em Música em Belo Horizonte e apresentado um TCC sobre as Riot Girls, Deh sentiu logo de início a pressão que muitas mulheres estão dispostas a encarar quando se dedicam à área de música no Brasil. Houve a necessidade de botar em prática aquele velho ditado: a união faz a força. Assim, o Coletivo ANA foi criado em 2011 com o propósito de legitimar e empoderar compositoras: “Éramos oito compositoras, cantoras e instrumentistas e demos o nome da mostra de ‘Amostra Nua de Autoras’, daí o ANA. Fazíamos mostras em duplas, e aproveitávamos para convidar outras compositoras de BH para tentar fomentar a cena. Daí veio nosso show, com todas juntas no palco, que fomos construindo aos poucos em encontros semanais onde criávamos juntas e mostrávamos nossas canções e poesias umas para as outras” conta ela. O projeto teve o apoio da estudiosa Carô Murgel, que legitimou-o como primeiro coletivo de mulheres compositoras no país.

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Apesar de uma conquista legítima e duradoura [o ANA existe até hoje], a força do coletivo ainda não era suficiente para que muitos responsáveis por mostras e festivais dessem a devida atenção às compositoras do gênero feminino, e a falta de mulheres em um festival de Belo Horizonte tornou a incomodar Deh: “A gente falou: ‘poxa, mas cadê as mulheres?’”. Esse questionamento, que aparece em 10 entre 10 discussões sobre line-ups no Brasil e no mundo, foi a grande força motriz para que a mineira, com o apoio do seu coletivo e de uma rede de mulheres no Brasil e no mundo, desse um passo maior pela inclusão.

A partir do dia 1º de Fevereiro de 2016 foi iniciada uma força-tarefa que despertou centenas de poetisas em diversos cantos do país. Junto com amigas e colegas, Deh resolve apostar no poder da democracia tecnológica e convida todas as compositoras a entrarem na dança mostrando seu talento através da hashtag #mulherescriando, que hoje reúne trabalhos enviados por mulheres de todo o Brasil, responsável pela criação da Mostra Mulheres Criando. A iniciativa foi endossada por nomes como Zelia Duncan e Pitty e potencializada por coletivos como o próprio ANA (Belo Horizonte), o LUA (Rio de Janeiro) e o extinto ECOA (Salvador).

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A criação da Mostra Mulheres Criando foi endossada por artistas como a cantora Pitty

E assim que foi aberto o canal, foram surgindo cada vez mais mulheres; as vozes foram somando até que um verdadeiro coral de poetisas foi formado. Como a rede criada organicamente se potencializou, surgiu a ideia de unir todas estas vozes para criar uma nova estrofe da música brasileira: um festival que esbanja talento e chama a atenção do mercado para tantas mulheres que existem pelo país, além de colocar em pauta assuntos necessários para as envolvidas. Foi então que, com o apoio da música paulistana Larissa Baq, e como um verdadeiro filho criado por muitas mães, nasceu o SONORA, que vem rodando o Brasil e também espalhando sementes pelo mundo.

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Larissa Labaq, a outra mãe do SONORA ao lado de Deh Mussolini

A primeira edição do SONORA aconteceu em Belo Horizonte, em julho de 2016, e desde então, mais 10 edições já foram sediadas em cidades como Sorocaba (SP), Mariana (MG), João Pessoa (PA), Salvador (BA), além de Buenos Aires, Dublin, Lisboa e Montevidéu, com uma edição marcada em Florianópolis (SC) ainda em outubro, e também em Barcelona, na Espanha. Apesar de recente, o projeto já viajou bastante, e é dotado de imensa energia, composto por cada vez mais mentes criadoras com a vontade de conectar e fazer acontecer.

Como uma iniciativa totalmente orgânica, o SONORA se revela um processo muito bonito de descoberta de talentos e democratização do mercado da música. Em cada cidade, a semente do festival começa a germinar de dentro das incubadoras culturais compostas por mulheres do cenário musical. A partir do primeiro contato, o grupo começa a reunir as “makers”, e dividir o evento em apresentações, bate-papos e rimas, além de conseguir um local para realizar o evento – tudo de forma 100% independente. É isso mesmo: até hoje o SONORA não recebeu nenhum tipo de incentivo externo para acontecer, e depende exclusivamente da força de vontade de muitas mulheres que sentem-se no direito e dever de lutar pelo seu espaço. Para as interessadas (e também interessados), o evento apresenta discussões sobre temas mercadológicos, artísticos, além de apresentações de voz e violão, poesia e até rap. O conceito “A Revolução Virá pelo Ventre” deixa o convite para que as mulheres tomem seu papel nesta luta que é delas, para elas.

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Clã SONORA feliz durante um dos eventos realizados em São Paulo este ano

O argumento da Deh para a realização do projeto é tão simples que não deixa espaço pra questionamentos, seja você militante ou “suave” na pauta feminista: “Nós existimos e precisamos apenas nos empoderar e assumir nosso espaço”. Antes de exigir que sejam incluídas, é necessário mostrar força, trabalho duro apesar de todos os pesares – e nisso as mulheres são imbatíveis.

Agora o projeto já tem peso suficiente para a realização de sua primeira edição nacional, porém, para que isto ocorra, é necessário um incentivo maior. Segundo Deh, “para fazer uma edição nacional necessitamos de patrocínio, pois fica inviável pagar para tocar, pensando que tem despesas de transporte, estadia e alimentação. Para que o SONORA não continue apenas com as compositoras da cidade de onde ele está ocorrendo seria realmente necessário esse apoio financeiro externo”.

A nova fase está próxima, e conta com desafios ainda maiores. De acordo com a Deh, é um desafio conseguir manter “unidade de proposta e formato, porque está crescendo vertiginosamente. Estamos fazendo um planejamento para o ano que vem, para garantir qualidade e coerência. Esse planejamento está sendo baseado nos retornos que as moças estão dando, relatando como foi em sua cidade, clipping, retorno de público, crítica, erros e acertos”. Assim, o SONORA tem grandes chances de ganhar o Brasil e o mundo, levando a beleza da emoção feminina a patamares que até hoje foram reservados a poucas mulheres.

À Deh e a todas as poetisas que estão fazendo tudo isto acontecer, deixamos nosso apoio incondicional, e nosso muito obrigada!

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