Atração do minifestival Dûsk x DSviante Saturn Äcida, DJ Volvox acha fundamental o trabalho de coletivos femininos

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Integrante do coletivo Discmowan, Ariana Paoletti aka Volvox fala com exclusividade ao WME


Filha de pai brasileiro, a DJ Ariana Paoletti aka Volvox ficou impressionada com a cena eletrônica de São Paulo quando esteve na cidade em 2016 para tocar na festa Dûsk, da DJ e designer Amanda Mussi. Ela, que já frequentou muito a cidade por conta de laços de família, ficou encantada com o que viu: “é mais fácil tocar aqui do que em Nova York atualmente”, disse em entrevista exclusiva ao Women’s Music Event.

Integrante do coletivo de mulheres de Nova York Discwoman, Volvox retorna a São Paulo para se apresentar no minifestival Dûsk x DSviante Saturn Äcida, que rola nesta sexta (3). O line-up está belíssimo e as infos para participar da festa estão nesta página.

Ouça o set Best Tracks of 2016 That Never Got Played, da Volvox

Batemos um papo com Volvox sobre o trabalho dos coletivos femininos de DJs, lembranças musicais das mais remotas, Donald Trump, e, claro, sobre a cena de São Paulo. Dá uma olhada.

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WME – Gostaria de viver num mundo onde a gente não precisasse falar sobre isso, mas não vivemos (pelo menos não no Brasil): Você ainda se encontra precisando provar suas habilidades musicais num mundo de homens?

Volvox – Após 10 anos tocando como DJ acho que posso falar com segurança que minhas habilidades foram comprovadas. Nesse ponto, sou sortuda de não ter que perder meu tempo com pessoas que não acreditam no que eu faço.

WME –  Quais são suas primeiras memórias de música? Quem foram seus primeiros ídolos?

Volvox – Minhas primeiras lembranças de música giram em torno do primeiro sistema de som estéreo que meu pai trouxe para casa quando eu era uma criança. O sistema veio com um CD de compilação que tinha uma composição eletrônica maluca de Frank Zappa, e eu acredito que essa foi a primeira vez que uma música eletrônica chamou a minha atenção. Mais tarde, quando eu estava no ensino fundamental, eu era fã da Gwen Stefani (da banda No Doubt), ela realmente exemplificou a mulher dos anos 90 para mim. Franca, estilosa e multitalentosa!

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WME – No Brasil, eu e minha sócia Monique recentemente lançamos a Women’s Music Event, uma plataforma de música, negócios e tecnologia que visa e promove a igualdade da mulher na indústria da música. É surpreendente, mas até a Madonna ainda sofre com o sexismo (você viu o discurso dela na premiação da Billboard?) Você acha que ações como essa podem realmente mudar a mentalidade da indústria da música?

Volvox – Claro. Acho que mudança é alcançada de duas formas: primeiramente marcando discursos e ações desagradáveis em comunidades de pensamento avançado. Isso foi muito bem feito pela Discwoman, particularmente no que diz respeito a todos os line-ups de DJs homens. Em segundo lugar, na medida em que as mulheres vão se encontrando em posições de autoridade dentro da indústria, cabe a elas alcançar e orientar outras mulheres que estejam num caminho semelhante.

WME – Quem foi o/a primeiro/a DJ que chamou a sua atenção e te levou a pensar: “É isso que eu quero fazer”?

Volvox – O que me levou a me tornar DJ foi minha paixão pela dança. Eu não fui inspirada a me tornar DJ por nenhum DJ. Isso nasceu do desejo de controlar a vibe e a música da noite.

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WME – Seu pai é brasileiro e você já veio muitas vezes ao Brasil… Mas você me disse que ficou 5 anos sem visitar o país e no ano passado ficou muito impressionada com o que viu, pode nos falar um pouco mais sobre isso?

Volvox – Acho sensacional as festas underground terem ficado populares em São Paulo, as pessoas, a música, a liberdade… Cinco anos atrás as coisas pareciam ser mais sobre baladas caras e exclusivas, o que não condiz com o valor real da música eletrônica. É ótimo ver festas nas ruas, em squats, seja lá onde for…Eu estou maravilhada com o quão fácil é tocar numa festa em São Paulo comparado com Nova York.

WME – Qual a sensação de voltar para um país onde Trump é o presidente?

Volvox – É bem deprimente, mas a resistência está aumentando de todas as formas. Todos os dias algo novo está acontecendo, então é muito difícil de prever onde estaremos em apenas dois meses.

WME – Fazer música pode ser um ato político para você?

Volvox – Com certeza, música sempre foi usada como ferramenta de resistência contra a opressão. Da mesma forma, os objetivos políticos estão ligados aos primórdios do techno. O espírito da música eletrônica sempre uniu pessoas que eu considero politizadas.

Veja o Boiler Room com Volvox, gravado em Nova York

WME – Como está a cena noturna de Nova York no momento?

Volvox – A cena noturna em Nova York continua badalada, mas agora o underground está lutando com vários fechamentos de locais. O incêndio em Oakland, na Califórnia, que matou 36 músicos e artistas levou a polícia a ser bastante agressiva com os fechamentos de locais de festas alternativas. As festas underground tiveram que tomar muitas medidas de segurança adicionais para se manterem abertas e com lucro. Isso limita severamente quantas pessoas podemos ter em qualquer evento e nos força a fechar nossa lista de convidados para evitar que sejamos denunciados por pessoas (músicos) mal-intencionadas. Tudo está ficando complicado, mas não vamos desistir de forma alguma.

WME – Você acha que cabe aos coletivos como Discwoman e Female Pressure reivindicar igualdade de gênero nos festivais de música e line-ups em geral?

Volvox – Coletivos como Discwoman e Female Pressure são essenciais nisso. Eles fornecem um contraponto constante à ideia de que mulheres de alguma forma são menos adequadas para a produção de música eletrônicas e performances. No final, cabe aos programadores de festivais darem as boas-vindas a artistas do sexo feminino em seus line-ups, mas esses dois coletivos são essenciais em suas missões para promover e cultivar a identidade do talento feminino.

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