Mergulhe na alma do clássico e transformador álbum Gal Costa, de 1969

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Patrícia Palumbo nos leva pra dar um rolê no primeiro álbum solo da musa da MPB


São tantos os discos fundamentais da história da música brasileira feitos por mulheres que é uma missão bastante ingrata escolher um só. Pense, por exemplo em Elizeth e seu Canção do Amor Demais, ou a Opinião de Nara, ou mais pertinho, o necessário e oportuno A Mulher do Fim do Mundo de Elza Soares, em 79 o primeiro solo de Marina Lima e. pra deixar mais difícil ainda, todos os álbuns da virada dos anos 60 pros 70 de Gal Gosta. Essa, a musa absoluta dos tempos da contracultura tropicalista, hippie, libertária, a primeira flower power do Brasil, é a minha escolha: Gal Costa, 1969. LP lançado pela Philips. Um disco transformador.

Ouça o álbum Gal Costa

Depois de estrear bossanovista em dupla com Caetano no lírico Domingo, Gal passou pelo liquidificador da Tropicália e voltou abusada em 69 com seu primeiro solo. Aparece linda na capa, como foi de praxe em toda essa sequência de maravilhas lançadas por ela no primeiro momento de sua carreira. Maquiagem carregada, cabelo solto, virou referência imediata. Foi a Gal das dunas do Barato, foi a Gal Fatal, Legal, Total que estreava ali cercada dos melhores músicos da época e dos compositores mais bacanas.

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Vamos começar pelos arranjadores: Lanny Gordin, o guitarrista lenda; Rogério Duprat, continuando o tom pop épico e erudito do tropicalismo; Gilberto Gil e sua deliciosa presença sempre. O disco foi gravado em 68 sob o impacto da aparição rock’n’roll de Gal no Festival da Canção quando defendeu Divino Maravilhoso – parceria de Caetano e Gil. Uma cantora como nunca se havia visto no Brasil, um choque de beleza e liberdade! Claro que a canção entrou no disco.

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Gal surgiu em seu primeiro álbum solo com maquiagem carregada, cabelo solto e virou referência imediata

O LP Gal Costa abre com Não Identificado, aquela maravilha que remete aos céus de Gonzaga, mas que traz o espaço sideral das histórias em quadrinhos. Da turma de Marcianita, Lunik 9, uma deliciosa canção de amor. Segue com Sebastiana de Rosil Cavalcanti – sua presença nacionalista é quase uma ode a Mario de Andrade e Villa Lobos que marcava o espírito dos antropofágicos baianos. Essa tem participação especial de Gil.

Foto sem data Gal Costa e Roberto Carlos.

Gal Costa e Roberto Carlos: o Rei e Erasmo trouxeram rock ao disco 

Lost in Paradise foi escrita em São Paulo por um Caetano que mal falava inglês e que se sentia oprimido pela presença forte do idioma norte-americano em seu cotidiano. Virou cult. Namorinho de Portão é uma declaração de amor feita por Tom Zé, namorado, encantado, delicadamente apaixonado por Maria da Graça. Saudosismo é uma reverência a João Gilberto, o preferido, e a letra é um manifesto.

O rock’n’roll de Roberto e Erasmo aparece em duas faixas, fechando o lado A: Se Você Pensa. Abrindo o lado B (as delícias do vinil….): Vou Recomeçar. Caetano faz dueto em Que Pena, de Jorge Ben, e em Baby, clássico instantâneo escrito a pedido de Bethania, mas que foi definitivamente impressa no repertório da musa aqui em questão. A Coisa Mais Linda que Existe é poema de Torquato Neto musicado por Gil, das minhas mais queridas desse poeta das mãos frias. E, por fim, a deliciosa Deus é Amor, mais uma de Jorge Ben falando de chuva e sol quentinho. Um disco pop demais! Gostoso demais. E não por acaso revisitado até hoje. Por Gal Costa inclusive. Eu já estou ouvindo outra vez.

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