A russa Dasha Rush, atração que deve surpreender no Dekmantel, fala sobre seus equipos e produções na coluna Meu Estúdio

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Dasha fala sobre desafios no estúdio: "é possível fazer boa música com um mínimo de equipamento, desde que se tenha algo a dizer"


A russa Dasha Rush, uma das atrações do festival holandês Dekmantel, que acontece pela primeira vez fora da Holanda em São Paulo, nos dias 4 e 5 de fevereiro, é daquelas artistas que deixam uma marca forte na plateia. Seu techno nem sempre tem a função final de fazer dançar com o corpo – seu som é muito mais uma ginástica para o cérebro.

Suas produções já saíram por selos como o alemão Raster Noton, de Carsten Nicolai, um dos principais celeiros do mais alto padrão de música eletrônica experimental do universo, lar de produções de Alva Noto e Ryuichi Sakamoto, só pra citar dois ícones do gênero.

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Pelo RN, ela lançou o aclamadíssimo Sleepstep – Sonar Poems For My Sleepless Friends, no final de 2016, uma amálgama de composições abstratas e etéreas que ora funcionam como uma cama de texturas emoldurando possíveis sonhos no espaço sideral, ora se materializam em forma de spoken word à la Laurie Anderson.

Ouça o álbum Sleepstep… de Dasha Rush

Suas experimentações vão ainda mais a fundo com os lançamentos de seu próprio selo, Fullpanda, lançado em 2005, do qual é dona e diretora artística. Ali ela dá espaço para lançamentos de industrial, dark e ambient techno. “All you need is years” é o lema do selo e de sua dona também. Não à toa, ela tem sido convidada para participar de festivais onde a música vem antes de tudo: Mutek, Atonal, Volt e Dekmantel, entre outros.

Muito curiosas, fomos atrás de saber o que Dasha mantém em seu estúdio. Ah, vale dizer que ela toca no Dekmantel SP no dia 5, dentro da programação diurna. Para ingressos, é só clicar aqui.

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WME – Explique o seu setup, e fale sobre particularidades de alguns equipamentos que fazem parte dele.

DASHA RUSH – Meu estúdio está em constante mudança. Uso hardware e software, não caio em radicalismos de escolher um ou outro. Acho que todos os aspectos da tecnologia têm suas vantagens e desvantagens. No momento (que talvez dure uns três meses) meus brinquedos são: Xenophone e Blofeld, meu pequeno (muito pequeno) universo de modulares está crescendo aos poucos 🙂 O sequenciador Dark Time é o meu xodó, além disso estou usando uma drum machine Elektron, uma Vermona (drum machine), uma Roland 909 e algumas outras ferramentas… Mas não vou listar todos os meus equipamentos 🙂

Em termos de software, estou amando há anos o NI Reaktor. Acho que é uma ferramenta incrível pra fazer música. Também tenho mexido na nova Machine da Native Instruments (talvez eu a inclua numa performance ao vivo). Então está tudo sempre mudando, um mês eu busco algo num num synth, no mês seguinte já pode mudar, dependendo da ideia ou humor. Porém tem alguns elementos que irão ficar comigo por um longo tempo, eu acho. Alguns exemplos são a Roland 909 e Roland System 100. Existe algum tipo de conexão emocional entre mim e esses dois equipos. Como principal digital audio workstation eu uso Cubase. E, claro, tenho um mixer de 32 canais, falantes, módulos de efeitos e toneladas de cabos!

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WME – Como é o seu workflow (fases de composição e gravação, arranjo, corrente de processamento de sinal, etc…)?

DASHA RUSH – Minha abordagem artística muitas vezes vem de uma ideia razoavelmente bem formatadas na cabeça. Podemos dizer que eu faço música que tem foco em algo, a maior parte das vezes. Pode ser um oceano, uma pessoa, até uma luz que eu vi numa noite, pode ser uma memória pessoal ou um pensamento sobre o mundo. Pra mim, é como pintar com as frequências, notas e sons. Diria que eu pinto com sons. Então quando eu tenho algum tipo de visão, eu escolho uma ferramenta (como se fosse um tipo de tinta ou textura de tela) e começo o processo de criar um som que corresponda àquela ideia e daí em diante, até eu atingir a forma desejada.

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WME – Qual o seu maior sonho de consumo em equipamentos ou ferramentas e por quê?

DASHA RUSH – Tenho uma imagem meio idealizada de mim mesmo de quando eu for velha. Gostaria de ter um Buchla e uma harpa de concerto. Por quê? Não sei explicar, apenas acho o som lindo, e também esteticamente acho incríveis os dois. Me vejo tomando um chá e ir tocar a harpa e depois do Buchla numa linda casa de madeira em algum lugar perto da natureza. Não sei se vai acontecer, mas eu gostaria.

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WME – Onde e como você começou a trabalhar em estúdio? Explique um pouco o seu processo de aprendizagem e trajetória.

DASHA RUSH – Comecei a aprender o processo de composição em música eletrônica no final dos anos 90. Naquela época, eu já tinha começado a discotecar, mas tocar não era o bastante para o meu apetite criativo. Primeiro eu aprendi com um amigo o uso básico de sintetizador, sequenciador e da estrutura dos sons. Tudo começou pra mim com software, eu não tinha equipamentos e tudo era muito cara – e talvez fosse cedo demais também 🙂  Eu pegava coisas emprestado, testava, lia sobre a física do som e tentava coisas. Minhas primeiras tracks foram feitas junto com esse meu amigo. Depois de 98, comecei a explorar sozinha e comecei uma sistema de aprendizado solitário. Basicamente eu me joguei no ato de fazer música com o que eu tinha em mão, aos poucos comprando ferramentas, criando progressivamente minha primeiras performances ao vivo e lá pela metade dos anos 2000 me senti confortável o suficiente para lançar e criar meu próprio selo. Foi um processo interessante e consistente. E ainda é!!! Acho que evoluí, assim como a tecnologia evoluiu, o que eu quero dizer com isso é que nunca se deve parar de aprender. A outra coisa importante no processo criativo além de desenvolver suas habilidades técnicas, eu acho, é ganhar algum tipo de maturidade nas suas próprias ideias, desenvolvendo sua visão e estilo pessoais. E isso só vem com o tempo.

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WME – Quais as ferramentas ou características que você considera mais importantes em um estúdio?

DASHA RUSH – Cérebro e ouvidos! E, provavelmente, uma enorme vontade de explorar música, além de um pouco de talento. Acho, honestamente, que você pode fazer uma pela peça musical com alto faltantes de merda e um mínimo de equipamento, desde que você tenha algo a dizer.

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